Muito do sucesso planetário do futebol vem de sua simplicidade. Um jogo fácil de praticar como lazer, sociável e que no âmbito profissional é de rápida compreensão para o torcedor, embora seja extremamente complexo em seus meandros.
Mas o futebol vem sendo invadido por uma onda insuportável de chatice. Em especial no Brasil, onde sempre foi marcado por grande naturalidade, incrível bom humor e enorme capacidade de comunicação popular. A simplicidade e a naturalidade estão sendo trocadas por um tom de suposta seriedade, sisudo e algo acadêmico, professoral e “business”.
Até com os apelidos deram para implicar. Veja só, na terra de Pelé, Garrincha, Tesourinha, Foguinho, Zico, Manga, Cabeção, alguns estafes (outra notória contribuição para a chatice) deram para reclamar de se chamar Paulinho de Boia e Gustavo de Mosquito.
Soube de boa fonte que os jogadores não reclamam dos apelidos. Até li entrevista de Paulinho dizendo que estava acostumado com o Boia. Colegas repórteres informam que Gustavo não ligava para ser chamado de Mosquito em sua passagem pelo futebol do Paraná. Mas os estafes (sempre eles!) consideram que os apelidos podem prejudicar a imagem dos jogadores numa eventual transferência para o exterior, conta a fonte. Não sei se o argumento é válido porque no “Transfermarkt”, um dos mais tradicionais portais de informação sobre jogadores, o nome Paulinho Boia já foi adotado.
Gustavo Silva deu entrevistas recentemente afirmando que gostaria de esquecer o apelido. Não me lembro de ter visto Paulinho pedindo para se desvincular do Boia. Nesses casos, com pedido pessoal do jogador, acho que é preciso respeitar. Mas quando vem do clube e do estafe, discordo. Até porque não vejo nada de ofensivo nos apelidos. Além disso, durante os jogos os microfones das transmissões captam jogadores e treinadores chamando os atletas de Boia e Mosquito. Por que então torcedores e narradores não poderiam usar os apelidos? Dentro da cabecinha conspiratória de alguns fanáticos há perseguição quando se fala o apelido de um e não o de outro. Pasmem!
Boia é um apelido que derivou de boi bravo, uma forma que um tio tinha de se referir ao temperamento de Paulinho. Mosquito ganhou o apelido em sua família e numa entrevista em 2017 disse que até sua mãe às vezes o chamava dessa forma. Mosquito que, inclusive, é o apelido de um grande jogador do basquete brasileiro, campeão mundial. Carlos Domingo Massoni não deixou de ser um craque por causa do apelido que o acompanhou nas quadras.
Reconheço que o apelido muitas vezes pode ser algo que se caracterize como bullying. Quando é depreciativo, explora algum problema físico ou questões raciais. Mas também pode ser apenas a sabedoria popular expressa em sua criatividade. O mundo do politicamente correto deve implicar com Manga, Renato Pé Murcho, Flávio Caça-Rato, Mauro Xampu, Radar, Ruço, Pequeno Polegar, Queixada, Cabecinha de Ouro, Pinga, Perdigão, Waldir Papel, Walter Minhoca, Pikachu, Boquita, Keno, Dentinho, Pirulito.
Algum chato certamente encontraria algo para detonar se alguém repetisse hoje o apelido de Casal 20 para Washington e Assis. Certos carolas sugeririam excomungar a Barreira do Inferno do Vasco. Chamar Edmundo de Animal poderia irritar alguma sociedade. Dá para fazer um dicionário de apelidos que só provocam sorrisos.
Muitos grandes jogadores tinham alcunhas que expressavam suas características físicas e como atletas. Didi era chamado de O Príncipe Etíope, pela elegância de seu porte de nobreza negra. Leônidas era o Diamante Negro. Ademir da Guia, o Divino. Júlio César Uri Geller entortava seus marcadores como aquele maluquete israelense fazia com talheres. Miraides Maciel Mota nunca reclamou de ser chamada de Formiga porque o apelido reproduz com bom humor seu desempenho incrível na seleção feminina. Baltazar era Cabecinha de Ouro. Renato era Gaúcho. Pepe, o Canhão da Vila. Telê, o Fio de Esperança. Messi é a Pulga. Houve os Menudos do Morumbi, os Meninos da Vila e de Xerém.
Daqui a pouco vão começar a implicar com os apelidos até dos times e não poderemos mais chamar de Bugre, Macaca, Furacão, Coringão, Porco, Colorado, Fogão.
Eu, embora seja juvenil perto de Everaldo Marques, Paulo Calçade, Milton Neves, Alex, Gustavo Poli, Ruy, sou chamado de Cabeção pelos meus amigos há muito tempo e nunca achei ruim.
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Mosquito!
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