27/6/2014 08:25

Corinthians volta de Extrema sem ameaça de morte, traição ou divórcio

Com o seu centro de treinamento emprestado à seleção iraniana, o Corinthians voltou à cidade mineira de Extrema, seu refúgio em outras oportunidades, para um período de treinamentos. Os jogadores alvinegros se apresentaram no Hotel Fazenda das Amoreiras em 16 de junho, lá trabalharam até a última quinta-feira e agora estão de volta a São Paulo, sem grandes histórias para contar.

O noticiário do time no período teve uma análise do desempenho do centroavante Paolo Guerrero na pescaria, explicações do preparador físico Eduardo da Silva sobre a condição do elenco e brincadeiras sobre a semelhança entre o atacante Romarinho e o colombiano Cuadrado, que disputa a Copa do Mundo. Nada parecido com o que se viu em 2001, quando a equipe esteve no mesmo hotel.

Don-don já não jogava no Andarahy, mas era um tempo mais simples, ao menos no que diz respeito à circulação de informações. Ainda assim, sem que ninguém curtisse ou compartilhasse em redes sociais o turbilhão de notícias que brotou do sul de Minas, houve registros de ameaças de morte, brigas de jogadores, troca de acusações entre atletas e dirigentes.

Tudo aconteceu em julho, enquanto a Seleção Brasileira disputava a Copa América. Campeã paulista e derrotada na final da Copa do Brasil pelo Grêmio, a equipe se preparava para um segundo semestre que seria bem ruim. No período em Extrema, se não se usou a palavra-chave “#CriseNoTimão”, o clima era tão tenso que as ameaças a Paulo Nunes foram um assunto pouco repercutido.

“Meu advogado está cuidando de tudo. Estou bem mais tranquilo. As ligações pararam, e nos próximos dias estarei mudando o número. Só vou mudar o número. O aparelho está muito caro”, brincou o atacante, que não era aceito pela Fiel por seu passado provocador no Palmeiras, em frase publicada por A Gazeta Esportiva em 18 de julho.



Àquela altura, as ligações criminosas haviam sido rastreadas e apontavam para o bairro paulistano da Mooca, onde morava Marcelinho Carioca. “Até perguntei se não era ele que estava de sacanagem”, sorriu o então camisa 10, bem-humorado. No mês seguinte, citando como justificativa justamente os telefonemas, estava fora do clube do Parque São Jorge.

Já no dia subsequente às declarações descontraídas de Paulo Nunes, a crise começava a tomar forma. “Divórcio à vista” era a manchete de A Gazeta Esportiva, que explicava: Marcelinho era “convocado em caráter de urgência pela diretoria e pela Hicks Muse, patrocinadora do clube, para uma conversa séria”. Deixou Extrema e foi ao Parque para a tal conversa.

O carioca havia criticado publicamente os dirigentes por terem eles tomado ciência de sua suspensão de uma partida da Copa Mercosul em cima da hora. Tinha também cobrado reforços para um time cuja limitação era bem aferida pela condição de titular de Otacílio. “Eles não têm de dar opinião. Se quiserem, vou ter de falar sobre aquela porcaria de jogo que fizeram contra o Grêmio”, respondeu o cartola Antônio Roque Citadini.




No ambiente pesado, não ajudava o comportamento de Wanderley Luxemburgo – ainda mencionado pela imprensa com a grafia falsa de seu nome –, que conseguia irritar praticamente todos os que não se chamavam Ricardinho. O técnico era questionado pelas saídas frequentes de Extrema, pelo uso constante do celular e pelas críticas aos mais jovens. Até o goleiro Gléguer se revoltou com o chefe por ser reserva em um jogo-treino contra o Bragantino, vencido com um gol no finalzinho de Edson Di.

Foi a essa altura que surgiu a informação de que Ricardinho, acusado de ser “traíra” e “o leva e traz” de Luxemburgo, teria apanhado de Batata, Scheidt, Rogério, Paulo Nunes e Marcelinho na sala de musculação do Hotel Fazenda das Amoreiras. A notícia foi publicada inicialmente em A Gazeta Esportiva e gerou todo um jogo de cena no sul mineiro.

“Está virando uma comédia”, protestou Marcelinho. “Isso é palhaçada. Por favor, deixem a gente trabalhar em paz. O Marcelinho é um dos atletas com que eu me dou melhor no elenco corintiano há anos. Temos que colocar um ponto final nesta história”, acrescentou Ricardinho, antes de dar o dedo mindinho ao companheiro em tentativa sarcástica de comprovar a paz



Ela não se comprovou. Quatro dias mais tarde, vinha à tona que era Marcelinho quem andava divulgando a – falsa – surra dada em Ricardinho, que parou de fingir sua proximidade de “anos” com o Pé de Anjo. “Nosso relacionamento é profissional: não sou obrigado a gostar dele, só jogar futebol”, disse o camisa 11, vencedor na Batalha das Amoreiras.

A diretoria afastou Marcelinho do time, e Luxemburgo avisou que não voltaria a trabalhar com ele. Com Scheidt – o mesmo que ouviria a rima “Scheidt, pede pra sair” meses depois e a obedeceria – como um dos líderes, o grupo se colocou ao lado de Ricardinho. Até a torcida chegou a berrar “uh, Ricardinho!” no primeiro jogo em casa pós-Extrema, uma vitória por 2 a 1 sobre o Independiente.

Logo, os torcedores retomariam o apoio ao Pé de Anjo, cantando “fica, Marcelinho” e cobrando um de seus críticos: “Ô, Paulo Nunes, fica quietinho, quem é você pra falar do Marcelinho?”. Já estava selada, porém, a saída do craque, que acabou indo à Vila Belmiro colocar outra camisa sobre sua primeira pele. “Sou corintiano, mas vou honrar a camisa do Santos.”



Marcelinho e Ricardinho trocaram afagos na inauguração do estádio do Corinthians em Itaquera
Marcelinho e Ricardinho chegaram a ser brevemente companheiros novamente no Corinthians, em 2006. Mais recentemente, atuaram juntos no jogo festivo de inauguração do estádio do clube, trocando carinhos efusivos no gramado de Itaquera.

Pode ter sido um gesto tão falso quanto a união de seus mindinhos, mas muita coisa mudou desde 2001 além da cor do cabelo de Ricardinho. Extrema, ao menos, está mais tranquila.



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3447 visitas - Fonte: GazetaEsportiva.Net

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