13/1/2020 09:13

20 anos do Mundial: Na base da superação, Timão parte para o título

Saga da fase de grupos do Mundial de Clubes de 2000 é marcada por jogos no limite, talento e classificação dramática: 'Precisávamos tirar força de onde não tínhamos'

Sacrifício, dedicação, intensidade... Há 20 anos, o Corinthians entrava para a história ao não medir esforços em nome de conquistar seu título inédito da conquista do Mundial de Clubes.

- Por mais que estivéssemos cansados, devido à decisão do Campeonato Brasileiro dias antes, sabíamos que precisávamos tirar força de onde não tínhamos. Era a disputa do Mundial! E nosso grupo sempre teve fome de ganhar todos os jogos possíveis - recordou o centroavante Luizão, ao LANCE!.




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Marcelinho Carioca ratifica a ansiedade da equipe, que foi credenciada para o torneio por ser campeã do país-sede em 1998 (feito que repetiu no fim do ano seguinte).

- Chegamos no dia 23 de dezembro (dia seguinte ao título do Brasileiro de 1999, sobre o Atlético-MG) exaustos. Alternamos poucas folgas neste período de Natal e Ano Novo e voltamos no dia 2. Mas a vontade de ficarmos marcados na história do clube era maior do que qualquer período de férias - disse.

O técnico Oswaldo de Oliveira ressalta a dimensão da maratona:

- Não vínhamos só da final Brasileiro. Disputamos Paulista, Copa do Brasil, Libertadores, Mercosul, no meio do ano fomos à cidade de Corunha e disputamos o Troféu Teresa Herrera... Tivemos problemas com alguns jogadores por lesões, como o Rincón, o Ricardinho vinha com desgaste - e detalhou o planejamento:

- Eu dei uma folga no Natal, depois voltamos no dia 26, outro descenso no Ano Novo e retomamos. Mas todos estavam comprometidos, a ponto de eu saber pela imprensa que o Edílson e o Vampeta, ao serem perguntados por terem sido os primeiros a chegar, dizerem: "o Oswaldo não merece ser sacaneado". Era muita união - completou.

Disputado no Brasil, o torneio tinha um ar inovador, pois trouxe pela primeira vez representantes dos cinco continentes: além do Timão como representante brasileiro, o Vasco vinha como campeão da Copa Libertadores de 1998 e os europeus Real Madrid e Manchester United foram convidados, respectivamente, pelos títulos do Mundial Interclubes de 1998 e da Liga dos Campeões de 1999. O mexicano Necaxa, que venceu a Liga dos Campeões da Concacaf de 1999, o australiano South Melbourne, campeão da Liga dos Campeões da OFC do ano anterior, o marroquino Raja Casablanca, primeiro da Liga dos Campeões da CAF, e o Al Nassr, que triunfou na Supercopa da Ásia de 1998, corriam por fora.




Na sua estreia no Grupo A (que teve só jogos realizados no Morumbi), o Timão mediria forças com o Raja Casablanca. O técnico Oswaldo de Oliveira relembra sua preocupação para o confronto com a equipe marroquina.

- Eu já tinha sido preparador físico no futebol árabe, sabia que o Raja era um time qualificado e que conquistar o Campeonato Africano de Nações é muito difícil. Quem subestimava era por falta de conhecimento. Mas a qualidade da nossa equipe falou mais alto.

Contudo, os jogadores corintianos não escondem que a tensão por um bom resultado rondou o início de partida.

- Era uma estreia de Mundial, né?! Além disto, eu tinha voltado de uma contusão, ainda não estava em plenas condições. Mas seguimos fortes, confiantes que podíamos começar bem e chegar até a final - afirmou Rincón.

Um dos mais jovens do grupo, o lateral-esquerdo Kleber contou como foi a pressão no decorrer dos 90 minutos.

- A gente sentia o desgaste físico. O próprio Rincón jogou no sacrifício. Além disto, não conhecíamos a fundo a maneira como o Raja Casablanca jogava, fomos nos encaixando com o passar do tempo, impondo nosso jogo - disse.

A porteira foi aberta graças à categoria da dupla Marcelinho Carioca e Luizão. O "Pé de Anjo" detalhou a jogada:

- Como a zaga deles era muito alta, eu comecei a fazer cruzamentos de rosca, para a bola cair rápido. E o Luizão, artilheiro nato, veio de carrinho para definir a jogada.

O atacante contou que, naquele momento, se surpreendeu.

- Combinei com o Marcelo (Marcelinho) para sempre jogar a bola para mim no segundo pau, porque eu ficava livre lá. Achei que o cruzamento viria para eu "matar" de cabeça, só que a bola veio muito rápido, tive que pegar de carrinho, foi coisa de camisa 9 mesmo.

O Corinthians definiu a vitória por 2 a 0 com um gol irregular: Fábio Luciano finalizou e, após a bola bater no travessão e não entrar, o árbitro italiano Stefano Braschi validou a jogada.






Dois dias depois, os corintianos teriam pela frente o Real Madrid de Anelka, Raúl, Roberto Carlos, Sávio e Seedorf, campeão do Mundial Interclubes de 1998. Com ambas as equipes vindo de vitórias, a partida era vista como um tira-teima para a vaga na final do torneio. Porém, ninguém se intimidava no Parque São Jorge.

- A gente foi para dentro, queria jogar de igual para igual. Nossos jogadores conheciam bem o time deles, tanto que fizemos uma partida muito parelha com o Real Madrid - relembrou Luizão.

O zagueiro João Carlos não se esquece do desafio de marcar a dupla formada por Anelka e Raúl:

- Os dois se movimentavam muito, principalmente o Anelka, que era muito forte. Precisamos ter muita concentração naquela partida. E o Edílson deu muito trabalho para o Karembeu, deu caneta, marcou dois gols. Chegamos a ficar na frente, mas em um contra-ataque, o Anelka foi fatal e empatou - afirmou.

O lateral-esquerdo Kleber detalhou como foi a luta corintiana no confronto com o Real:

- Sofremos bastante, porque era um time fora de série, mas veio o Edílson, que jogou muito. Pesou demais para a gente se manter vivos e garantir o empate em uma boa partida - disse.

Além disto, o técnico Oswaldo de Oliveira postou a equipe de uma forma diferente para o confronto com os merengues:

- Devido à qualidade do Real, nos resguardamos um pouco em alguns momentos. Nesta partida, não tivemos o Rincón, que ainda não estava 100% recuperado. Mas contávamos com uma qualidade muito forte na frente, com Edílson, Luizão, Marcelinho, Ricardinho, e isto foi fundamental.

O comandante ainda lembrou-se do peso que teve Dida para a partida. Na reta final, o camisa 1 defendeu um pênalti cobrado por Anelka:

- Dida vivia uma fase excepcional. Inclusive, já tinha pegado dois pênaltis cobrados pelo Raí no Campeonato Brasileiro (de 1999), e mais uma vez se agigantou. Foi muito importante para nós.



O último ato do Corinthians na fase de grupos fez os torcedores roerem as unhas. Como mais cedo, o Real Madrid derrotara o Raja Casablanca por 3 a 2, o Timão entrou em campo ciente de que precisava vencer o Al Nassr por dois ou mais gols para chegar à decisão do torneio. Entretanto, Oswaldo de Oliveira fez um alerta sobre os árabes antes da equipe corintiana entrar em campo.

- O Al Nassr tinha um jogador alto perigosíssimo de área. Além disto, era um time bem forte - destacou.

Ricardinho abriu o placar aos 28 minutos. Porém, a busca por mais um gol se tornou desafiadora:

- A gente estava a par de que precisava fazer dois gols. Aí começou o nervosismo. Mas, como aconteceu em todos os jogos, pesou a experiência de jogadores como o Rincón, o Vampeta, o Marcelinho, Edílson... - disse Kleber.

Luizão teve de lidar com uma série de percalços no Morumbi.

- Perdi muitos gols de cabeça, coisa que era muito difícil de acontecer comigo. Aí acontece do Daniel (Martins) ser expulso e o Oswaldo me colocar na lateral - afirmou.

O treinador justifica a opção por improvisar o camisa 9 na lateral direita.

- Como o Dinei entrava bem nas partidas, quis fortalecer as investidas da equipe, deixando ele e o Edílson na frente e o Luizão na lateral. O Luizão acabou fazendo a jogada do segundo gol, em uma bola muito bem trabalhada na qual o Rincón foi muito feliz - constatou.

O atacante brinca com o fato de ter conduzido o Timão à final mesmo jogando improvisado na posição:

- A minha sorte é que eu passei a bola, o Rincón bateu e fez o gol, senão eu estava f... (risos)

O colombiano conta como foi se tornar o herói da vitória por 2 a 0:

- É, eu vi as possibilidades. Afortunadamente, arrisquei quando veio a bola e fiz o gol. Foi fundamental para a nossa classificação - disse.

O Corinthians partia para o Maracanã em busca de fazer uma história de proporções mundiais.





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