20/11/2019 15:10

Coelho comenta sobre o racismo e a situação de técnicos negros no Brasil

Técnico do Corinthians lamenta problema no país: “Nunca foi fácil, mas temos condições de mudar esse cenário

O Corinthians tem apenas o terceiro técnico negro dentre os times da Série A. Dyego Coelho assumiu o comando do clube até o final da temporada e, assim, reforça uma estatística dura para os profissionais do esporte que tentam ser treinadores de futebol profissional, unindo-se a Roger Machado, comandante do Bahia, e Marcão, do Fluminense – os dois, também, ex-jogadores de futebol.



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Um dos Filhos do Terrão, Coelho foi revelado pelo Alvinegro no início dos anos 2000. Chegou a atuar no futebol europeu e em outras equipes do Brasil, até que se aposentou em 2014. Já no ano seguinte começou a carreira como treinador nas categorias de base do clube, onde se tornou, neste ano, o técnico principal do time Sub-20.

Agora como comandante do Timão, ele é protagonista na beira do gramado em um momento que é importante não só na vida profissional, mas também na pessoal: ganha voz no mês de novembro, que marca o feriado da Consciência Negra. Coelho, então, analisou os problemas que profissionais como ele, técnicos de futebol negros e, antes de tudo, pessoas negras, enfrentam no país. Afirma, ainda, que não julga as reações de quem foi ofendido racialmente. E pede mudança na sociedade.

Confira a entrevista com Dyego Coelho, técnico do Corinthians:

- Em primeiro lugar, como você vê a sua carreira como técnico? Sempre sonhou se tornar treinador quando ainda era jogador?

Ainda estou apenas começando a minha carreira. Brinco sempre que aprendo demais dia após dia com todos.

- Você já sofreu racismo de forma direta? Recorda-se da primeira vez que isso aconteceu na sua vida?

O racismo está dentro da nossa sociedade. Cansei de ir a restaurantes, por exemplo, e ser observado dos pés à cabeça por ser negro.

- Sabendo da dificuldade que os técnicos negros encontram no futebol brasileiro, como foi a decisão de se tornar treinador?

Foi a minha paixão pelo futebol que me fez querer ser técnico. Só de ter tomado esta decisão, já sabia que não seria fácil. Afinal, se formos pegar as Séries A e B, são apenas 40 pessoas que têm este cargo. Se juntarmos só os negros, este número diminui ainda mais. Mas é como disse na coletiva após o jogo contra o Inter: pouco a pouco, estamos conquistando o nosso espaço.

- Como uma pessoa pública que você é, como acha que jogadores devem reagir ao racismo que enfrentam nos campos de futebol?

A reação vai muito de cada um e não me sinto capaz de julgar alguém que reage mais veementemente, como o Taison ou o Balotelli fizeram. Cada um sabe a dor que sente e, muitas vezes, há gente querendo ditar demais o sentimento dos outros.

- Para você, o que explica o comportamento racista de torcedores e/ou adversários nos estádios?

O fato de o racismo estar dentro da nossa sociedade desde sempre. As pessoas cresceram escutando piadas racistas e acham que isso é normal. Pouco a pouco, isto está mudando, mas, a cada caso que vemos no esporte, fica claro que o caminho a ser percorrido é muito longo.

- Você se juntou agora a Roger Machado e a Marcão, e é apenas o terceiro técnico negro na Série A. Para você, qual a importância da sua trajetória para a população negra que luta por um espaço no esporte mais importante do país?

É mais um passo de uma caminhada bem longa. O mundo ideal é aquele em que a cor da pele não inferioriza ou superioriza ninguém. Eu não posso ser considerado bom ou ruim por ser negro. Eu tenho que ser considerado bom ou ruim pelo meu trabalho.



- Para você, qual é a mensagem que o Dia da Consciência Negra transmite não só aos negros, mas a toda a população brasileira?

Nós estamos procurando o nosso espaço e nós vamos chegar lá. De uma maneira ou de outra. A gente tem que fazer por onde. Fazer com que as coisas funcionem independentemente da cor. Não é uma situação fácil, como nunca foi historicamente, mas nós temos condições de mudar este cenário.

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