13/4/2019 10:51

Manoel, o Negro Drama da vida real que pode ser campeão pelo Corinthians

magine você sair de um bairro afastado de Bacabal, cidade do interior do Maranhão, para jogar futebol e ser disputado por grandes clubes do país. Manoel ajudava seu pai na roça em um lugar que ninguém tinha acesso à internet e até telefone era algo raro antes de passar no primeiro teste para tentar a vida no esporte.



Essa essência o zagueiro de 29 anos nunca perdeu. O jeitão calmo, tranquilo, longe da vida noturna e mais fã de sinuca e baralho com os amigos perpetua até hoje. Manoel é um cara que liga para a mãe, Dona Antônia, de 75 anos, todos os dias, pontualmente às 21h. A “coroa”, como ele chama, prefere continuar com a vida no Maranhão.



Alguém deve se perguntar: mas e aquele estilo zagueiro bravo, ‘beque de fazendo’, sem risadinha dentro de campo? Nessa entrevista exclusiva à Gazeta Esportiva, o jogador explica que não tem dupla personalidade, mas sabe bem separar as coisas.

Se em casa o som é mais amistoso, com reggae, axé e forró, a caminho do estádio a trilha é Racionais Mc’s. Negro Drama inspira Manoel, lhe traz lembranças de sua superação na vida e o faz até cantar com certa emoção no fim dessa conversa.

Apenas 14 jogos após chegar ao Corinthians, o camisa 4 já pode conquistar seu primeiro título. Neste domingo, às 16h, o Manoel e seus companheiros abrem a decisão do Campeonato Paulista contra o São Paulo, no Morumbi.

O zagueiro não esconde a confiança, admite a necessidade de ajustes e torce para que os pênaltis não sejam mais necessários para ele não correr o risco de precisar se arriscar diante da marca da cal.

Confira a entrevista exclusiva com Manoel, zagueiro do Corinthians:

Manoel, você chegou ontem e já pode ser campeão…
Muito feliz, né? A equipe toda está muito feliz pela classificação. A gente sabe como foi difícil, né. Equipe do Santos muito boa, conseguimos chegar na final com muito mérito, porque a gente sabe que no primeiro jogo a gente jogou muito bem, no segundo não, mas a gente conseguiu o objetivo, que é chegar na final.

O presidente Andrés Sanchez disse que se jogar desse jeito, perde para o São Paulo…
“A gente tem consciência de que não fez um bom jogo. A gente não conseguiu jogar, enfrentamos uma equipe muito forte, fora de casa, e a gente não conseguiu fazer o jogo que a gente pensou em fazer. No primeiro jogo a gente foi melhor, tivemos mais oportunidade de gol e o Santos não conseguiu jogar. Mas a zaga se comportou bem, chegamos ao objetivo, que é a final. Agora vão ser dois jogos muito importantes para a gente. Vai ser muito analisado para a gente melhorar bastante.

O Cássio disse que se tiver pênaltis ele bate na sua frente…
(Risos) Na verdade, os caras estavam brincando porque no jogo contra o Racing, a bola sobrou e já meti o chutão na bola. E os caras: ‘meu Deus, a bola estava quase dentro do gol e você ainda errou o gol’. Mas o Ralf ia bater (o pênalti contra o Santos). O Ralf estava me olhando já e eu: ‘não. É você, você’. Ele me olhou assim ‘vai você’. E eu falei: ‘vai você’. (risos)

Você já bateu contra o São Paulo (e errou, pela Libertadores de 2015, quando defendia o Cruzeiro)…
Já bati e não tive uma experiência muito boa, não, viu. Não sou fã de pênalti, não. Graças a Deus, não precisou (contra o Santos). Coração já estava disparado já. (risos).

O São Paulo de agora é muito diferente daquele que o Corinthians venceu na 1ª fase?
É um clássico, né? Final. Vão ser dois grandes jogos. Acho que o São Paulo mudou muito, jogadores mais rápidos, jogadores que correm muito, que brigam mais, um time muito difícil, que vêm em um momento muito bom. A gente sabe que o São Paulo cresceu bastante. A gente tem que treinar esses dias aí para a gente ficar forte também.

O Corinthians tem alguma vantagem por jogar o segundo duelo na Arena?
Acho que é 50/50 (em porcentagem). É um clássico, primeiro jogo vai ser de apoio da torcida deles, o segundo com a nossa. Acho que a gente tem de entrar concentrado. Entrando concentrado a gente tem grande chance de fazer um grande jogo lá.

Você chegou, teve a história da catapora, demorou para engrenar, mas hoje é titular e vem evoluindo. Como você fez para se blindar das críticas?
Trabalhando só. A gente trabalha mais ainda e confia no potencial. Eu tive quase 45 dias de folga por causa da catapora. Cheguei e não tinha feito nada. Tive um mês de férias. Cheguei para fazer a preparação no Cruzeiro e acabei tendo a catapora, e quando eu comecei a jogar, depois de duas semanas de preparação física, que é pouco. Também no Cruzeiro eu passei o ano todo machucado, uma lesão no pé. Acabei sentindo o metatarso de novo, estava no banco, não estava tendo uma sequência, tudo isso influencia muito. Cheguei aqui, tive uma sequência, comecei a me soltar mais com meus companheiros e as coisas foram acontecendo. Fico feliz pelo momento, a equipe vem crescendo no momento certo. Acho que agora a gente chega muito forte para a final.

Agora você está 100%?
Estou 100%. Precisava de ritmo mesmo, de jogar, ter uma sequência. Tive uma sequência com o Fábio, me sinto muito bem fisicamente, confiante, preparado. Acho que não só eu como a equipe está preparada.

Por que o Corinthians toma tanto gol de bola aérea?
“A gente treina bastante isso, mas os adversários têm grandes cabeceadores também. Tomamos um gol agora em que a equipe do Santos estava toda… Dois zagueiros dentro da área, estavam no desespero já. Acabamos sofrendo o gol. Mas, a gente treina bastante. Quando toma gol, todo mundo fala que é só de bola parada, que é a defesa, mas é o time todo. A gente sabe que precisa melhorar e a gente vai trabalhar para isso, para não tomar gol.

Que história é essa de ‘dupla personalidade’? O pessoal diz que no campo você é o cão bravo e fora dele é manso, calmo…
Eu sou tranquilo, cara. Mas dentro de campo ali eu estou focado, pensando em fazer meu trabalho, ajudar meus companheiros, não fico brincando, fico pensando no jogo ali, acabo não dando muita risadinha e as pessoas acham que sou bravo, mas sou tranquilo.

Isso tem muita relação com sua criação na roça, né?
Eu sou um cara muito tímido. Eu não sou de falar muito, de dar entrevistas, sou mais na minha. Dentro de campo você acaba se soltando mais, conversando com os companheiros, mas sou um cara tímido para falar. Minha mãe me criou assim. No interior a gente é mais família, não tem esse negócio de internet, essas coisas. Eu sou um cara mais tranquilo.

O que exatamente você fazia antes de jogar futebol?
Eu trabalhava na roça, roçando pé de cerca de fazenda, trabalhava com meu pai, que plantava melancia, arroz… Trabalhava com ele. Estudava pela manhã e à tarde trabalhava na roça com ele.

E que horas você jogava bola?
No começo não tinha tempo, não pensava em jogar bola, só em ajudar meu pai, trabalhar, mas um dia ele me levou na escolinha para fazer um teste, acabei gostando, acabei passando e, graças a Deus, eu estou aqui hoje. Agradeço a Deus por ter dado tudo certo, porque é muito difícil sair do Maranhão para poder estra aqui. Não é fácil. Só eu sei a dificuldade que foi para eu chegar aqui.

É verdade que você liga para sua mãe todo dia no mesmo horário?
Eu acabei perdendo meu pai, faz seis anos que eu perdi meu pai, e minha família é a base de tudo. Eles estão sempre comigo, então, nunca vou deixar minha família. E todos os dias, às 21h, eu ligo para minha mãe antes dela dormir. Todo santo dia eu ligo para ela, falo com minha sobrinha, meu irmão, minha mãe. Isso é todo dia.

É o horário que ela está vendo novela. A gente conversa, aí ela vai para a cama. Todo santo dia eu ligo, ela pergunta como eu estou, se estou comendo bem. Eu falo ‘está tudo bem, mãe’. Sou um cara muito família, porque é como eu falei, eles que me deram tudo, me deram força para eu estar aqui hoje. Só eu sei a dificuldade para chegar aqui. Eles acreditaram em mim, no meu potencial. Eu acreditei, saí do Maranhão para poder estar aqui. Então, minha família é minha base.

Não pensou em trazer eles para cá?
Na verdade, não. Minha mãe foi uma vez para BH, no meu aniversário. Passou três dias e já queria ir embora, porque ‘tenho de dar comida para as galinhas e não sei o quê’. Aí acaba não ficando. Minha mãe tem 75 anos, é da roça mesmo, todo dia de manhã acorda cedo, vai andar com parente, conversar, então, acaba que em outra cidade, morando em apartamento… Imagina!

Manda um recado para ela, então!
Dona Antônia. Te amo, minha coroa (risos).

E essa história de que você tem dois cachorros na sua casa em Belo Horizonte?
Tem um cara que cuida dos cachorros lá, um Pitbull e um Chow Chow. Não são bravos, não. São mansinhos. Eu sinto saudade, sim. Tentei trazer, mas não pode em apartamento e acabou não dando para trazer, mesmo porque são grandes também, precisam de espaço.

Voltando a falar sobre o Corinthians, como essa polêmica toda com Carille e agora essa com Clayson, que xingou o árbitro, como que vocês fazem para isso não atrapalhar o time?
Essa do Clayson eu até perguntei para ele na hora do treino porque eu não sabia, acabei indo viajar na casa lá dos meus cachorros e fiquei sabendo hoje (quarta-feira passada) o que aconteceu. Mas eu acho que a gente tem que pensar em fazer o nosso jogo. Sobre essas críticas do Fabio, lá no momento, talvez de cabeça quente, se alterou um pouco, mas é difícil falar. A gente não sabe o que aconteceu realmente, não dá para opinar.

Ano passado, o Léo, zagueiro do Cruzeiro, revelou que o Mano Menezes já sabia sobre a escalação do Corinthians antes da final da Copa do Brasil. Você estava lá. É verdade tudo isso?
Eu não sei. Mas, o Mano conhece muitas pessoas, não sei se ele ficou sabendo. Difícil falar sobre isso (risos).

Você gosta de sair à noite?
Não, não gosto de sair à noite. Prefiro ficar vendo televisão mesmo, jogando sinuca no condomínio. Nunca gostei muito de sair. Sou um cara mais caseiro mesmo. Nunca gostei de sair.

Hobby preferido?
Eu gosto de jogar sinuca. Gosto de jogar baralho, cacheta. Mas só com amigo só. Meu parceiro de prédio, o Cássio, é evangélico, não gosta muito de jogar baralho (risos). Acabo ficando sozinho, mas eu tenho uma amizade com uns amigos que eu já conhecia de Curitiba, de vez em quando acabo jogando sinuca com eles no prédio lá, aí acabo ficando mais tranquilo.

Música?
Eu gosto e ouvir reggae, lá no Maranhão é muito reggae, Léo Santana, de axé gosto também e forró. E quando vou para os jogos eu ouço Racionais, que é a música que me deixa mais motivado.

Alguma música específica?
Negro Drama. A parte do final, do comentário que ele (Mano Brown) fala. A melhor parte que tem acho que é aquela parte que ele fala… fala da minha vida assim, sabe? De onde eu saí, os lugares que eu passei. Acho que Negro Drama é a música que eu mais gosto.

Te faz lembrar a tua história, a tua infância?
(Manoel cantando) “Aí, Dona Antônia, sem palavras, a senhora é uma rainha”. É muito legal a música, ouço ela quase todo dia também, porque meio que faz parte da minha vida, sabe? Todo jogo eu ouço ela para me motivar mais.

Nunca fui em um show deles.

(Manoel cantando) “Se tiver que voltar pra favela eu vou voltar de cabeça erguida, porque assim que é, renascendo das cinzas, firme e forte, guerreiro de fé. Vagabundo nato!”

Mexe (comigo a música). Quem olhava para mim e hoje todo mundo olha para o meu carro. É a realidade da vida.



Corinthians, timão, Manoel



Leia também: Carille não revela escalação em último treino aberto do Corinthians antes da final

Leia também: Direto do CT: treino técnico na manhã de sexta-feira

Leia também: Capitão na final, Cássio reclama de excesso de críticas ao Corinthians

Mais notícias do Corinthians

Notícias de contratações do Timão
Notícias mais lidas

vamos ser campeao em manoel

Enviar Comentário

Para enviar comentários, você precisa estar cadastrado e logado no nosso site. Para se cadastrar, clique Aqui. Para fazer login, clique Aqui ou Conecte com Facebook.

Últimas notícias